A poesia do codificador

Quando comecei com programação profissionalmente, a única coisa que  eu queria era que o sistema funcionasse, não importasse como. O tempo era gasto com esse único objetivo, porque eu ainda estava em uma época de confirmação das minhas capacidades como desenvolvedor. Era uma época de provar para mim mesmo o que eu podia ou não podia fazer.

Hoje, olhando para os novos programadores que sou responsável, vejo muito disso. Existe uma insegurança em quem começa a desenvolver e tem a responsabilidade de entregar um produto. Essa dúvida está alicerçada na crença de que não possuem conhecimento suficiente para fazerem o que estão fazendo. Questionamentos simplistas como “melhor adicionar isso na esquerda ou na direita” surgem porque possuem a necessidade de criar os limites mentais para terem aprovação daquilo que estão fazendo, e assim medirem seu próprio desempenho, e construírem uma base sólida para sua formação. É o período da infância em todo novo aprendizado, no eterno ciclo de evolução.

Mas o conhecimento é conseguido pouco-a-pouco, a confiança instaurada em sua personalidade, e eis que o amadurecimento surge suavemente como o nascer do sol em uma noite escura, acalentando as mente para as novas possibilidades. As dificuldades de outrora tampouco são lembradas, porque o profissional já atingiu o patamar necessário para sua estabilização. Agora não existe mais insegurança. Existe apenas a continuação do caminho do aprendizado.

Esse é um ponto muito interessante. Nesse momento, o desenvolvedor já não se preocupa se vai conseguir ou não. Ele sabe que vai, porque sua fé é baseada em experiências passadas. A questão é apenas “como” ele vai fazer, e nesse momento algo muito legal acontece: ele passa a ser crítico. Passa a pensar em tudo o que faz, com olhar analítico, para fazer tudo da melhor forma.

O desenvolvimento de sistema já não é mais preocupação. Torna-se um passa-tempo, um jogo mental. O desafio é superar a sí mesmo, tornando tudo mais simples, flexível e performático, e o desenvolvedor para de escrever programas e passa a criar uma obra, como um pintor em uma tela. É possível ver beleza no código-fonte, e quem desenvolve a muito tempo sabe disso. Os recursos bem empregados, o algorítmo otimizado, as abstrações de forma coerentes, a teoria da orientação à objetos (para aquele que não concordam com essa afirmação, veja isso) tornando-se viva na implementação, tudo isso contribui para um código bonito.

Espero muito que você tenha essa experiência, de desenvolver sistemas de forma otimizada. É muito gratificante sair da “obrigação” do desenvolvimento funcionar e atingir a esfera da criatividade.